domingo, 11 de julho de 2010

Beckenbauer: 'O Brasil se preocupou muito com a defesa'

Em entrevista exclusiva, Kaiser elogia trabalho de Löw à frente da seleção alemã e pede paz entre Pelé e Maradona

Beckenbauer segue envolvido com o futebol (Foto: EFE)

Beckenbauer segue envolvido com o futebol (Foto: EFE)

Mateus  Benato
Mateus Benato ENVIADO A JOHANNESBURGO (AFS)
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Quando alguma coisa no futebol surpreende Franz Beckenbauer, significa que é realmente surpreendente.

Foi que o fez a Alemanha, terceira colocada na Copa do Mundo, ao vencer o Uruguai neste sábado por 3 a 2. Mais do que o resultado, o que animou o Kaiser foi o estilo técnico e, principalmente, ofensivo da atual geração. Para o ícone do futebol alemão, campeão do mundo como jogador e técnico (apenas Zagallo tem tal feito no currículo), é a prova de que o jeito de se jogar está mudando, e para melhor.

O futebol-arte está presente na final destte domingo, entre Holanda e Espanha, e a seleção do coração de Beckenbauer quase chegou lá. Pena que, para ele, não foi o que o Brasil buscou nesse Mundial, como revela nessa entrevista exclusiva concedida na África do Sul.

Aos 64 anos, ele não quer mais ser treinador, mas continua trabalhando no esporte, comandando grupos de estudo da Uefa e da Fifa: tudo pelo bem da "família-futebol". Também por isso, com a autoridade de um imperador, o Kaiser ordena que Pelé e Maradona se entendam.

LANCENET!: O futebol mostrado pela Alemanha nessa Copa surpreendeu muitas pessoas pela qualidade. O que aconteceu?

Foi uma surpresa até para mim. Depois que o capitão Ballack se machucou, o que foi um choque para a equipe, os jogadores tiveram que se unir ainda mais como grupo e, além de suas habilidades técnicas, atuar como um time. Todos correram e lutaram pelo companheiro que perderam. E foi ótimo ver isso acontecer! Eu tenho de voltar 20 anos no passado para me lembrar de tanta qualidade.

LNET!: Sempre que se fala do estilo alemão, pensa-se em muita força, tática, e pouca arte. Pelo que mostrou esse grupo, é possível mudar essa visão no futuro?

Nós já estamos em um bom caminho para mudar esse estilo, mas isso depende muito dos tipo de jogadores que são convocados para uma competição como a Copa do Mundo. Eu estou convencido de que vamos continuar com o estilo que o atual técnico tem em mente. O futebol mundial está sempre mudando e todos têm de se adaptar ao que acontece de novo. Pessoalmente, eu espero que nós possamos continuar no caminho que o time está jogando agora.

LNET!: Na Copa, parecia que a Alemanha jogava do jeito brasileiro, enquanto que o Brasil mostrou um estilo mais alemão...

A Alemanha tem muitos jogadores de talento que venceram a Eurocopa Sub-21 em 2009. Eles estão jogando o Campeonato Alemão e aprendendo bastante da parte tática. Todos nasceram e vivem no país, mas têm uma bagagem multinacional de futebol, o que tem contribuído para mudar o estilo de jogo alemão. Mas eu preciso destacar algo importante: Löw fez um trabalho fantástico na montagem da equipe principal. Nós estamos jogando mais fortemente no ataque, com mais técnica do que nos anos anteriores, enquanto que o Brasil ficou mais preocupado em armar uma defesa compacta.

LNET!: A partir desse ponto de vista, você não acha que a lesão de Ballack foi um tipo de sorte? Jovens talentos como Özil e Müller conseguiram ter espaço no time titular...

Ballack é um jogador importante, com experiência internacional. Depois do choque que foi sua saída, a equipe assumiu uma responsabilidade ainda maior para tentar suprir sua ausência. Schweinsteiger, Lahm e outros jogadores, que não estavam tão bem em seus clubes, jogaram a Copa em um nível que me surpreendeu bastante, e positivamente. Os garotos que você citou se enquadram na mesma situação. Quanto a Ballack, espero que ele possa voltar o quanto antes, pois faz falta para a seleção.

LNET!: Você já ouviu falar de Ganso e Neymar? Eles se parecem muito com Özil e Müller, pelo talento precoce, mas não vieram para a África do Sul. Você acha que Dunga está arrependido?

Eu os conheço, sim, têm muito talento, mas é função do técnico convocar os jogadores. Às vezes, é complicado alguém de fora entender ou julgar as decisões. No meu tempo de treinador, eu tive de tomar muitas decisões e bancá-las. Eu não posso julgar a convocação do Dunga, pois ele conhece os jogadores melhor do que eu.

LNET!: Falando em talento, existe algum jogador na Alemanha que tem um estilo parecido com o seu?

O jeito mais tático de se jogar futebol mudou nos últimos tempos. Eu era líbero, o que não existe mais do jeito que era antes. Eu gosto muito dos estilos do Schweinsteiger, do Müller e do Lahm. É claro que não dá para comparar o futebol deles com o que se jogava nos anos 70 e 80, mas é muito bom vê-los em campo.

LNET!: Existe semelhança entre a seleção atual e a que conquistou a Copa de 90, com você como técnico?

A equipe de 90 era um pouco mais experiente. Ambas jogaram e estão jogando um futebol muito técnico. E o trabalho de montagem dos grupos também foi muito bom. Do ponto de vista da qualidade, são equipes bem parecidas.

LNET!: Por que você não quer mais trabalhar como técnico?

O tempo de vida tanto de um jogador como de um treinador é muito limitado. Eu aproveitei bastante o meu tempo no banco, como comandante da seleção alemã, do Olympique de Marselha e do Bayern de Munique. Atualmente, eu estou engajado em trabalhos da Uefa e da Fifa para trazer novas ideias para o desenvolvimento do futebol. O futebol ainda faz parte da minha família e eu realmente gostei do que fiz e do que ainda posso fazer para o esporte que tanto amo.

LNET!: Por falar nisso, o que acha das constantes discussões entre Pelé e Maradona, que às vezes descambam para o lado pessoal?

Em primeiro lugar, cada um deles cuida da própria vida e decide o que fazer. Por outro lado, os dois foram ícones como jogadores e ainda o são para o mundo do futebol. Eles não deveriam continuar lidando desse jeito com suas desavenças. Eu fico um pouco triste toda vez que eles trocam ofensas. Eu espero que eles tenham a força de superar essa situação. Gostaria de vê-los unidos como membros da família-futebol, respeitando um ao outro.