segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Gracias, (D10S) Román!

O nosso amigo Cahê Mota, repórter do GLOBOESPORTE.COM, está em Buenos Aires e foi à Bombonera no sábado para acompanhar de perto o retorno do meia Juan Román Riquelme ao Boca Juniors, após seis meses de ausência por conta de uma lesão no joelho. Ah, o Boca e a torcida fizeram a festa, mas o time saiu de campo derrotado: 2 a 0 para o Argentinos Juniors. O resultado dessa experiência está aí abaixo.

*Por Cahê Mota, direto de Buenos Aires

(Cahê Mota)

O placar? Pouco importa. O adversário? Também. Não saí do hotel onde estou hospedado em Buenos Aires para uma série de reportagens para o GLOBOESPORTE.COM para ver uma partida de futebol. Saí para sentir um estádio, sentir uma torcida. Enfim, sentir a Bombonera e a “hinchada” do Boca. Isso, sim, importa (e muito). Mas não foi o que tornou a noite de 6 de novembro de 2010 inesquecível. O responsável por isso tinha nome, sobrenome e elegância. Muita elegância. Juan Roman Riquelme.

Elegância, talento, uma inteligência fora do comum e paixão. Paixão que sempre fez questão de demonstrar pelo Boca. E paixão que a torcida não se cansa de demonstrar por ele. Senti, sim, a Bombonera pulsar, como dizem. Mas não pela equipe. A Bombonera pulsa por Riquelme. Ou melhor, Rique, como cantam a cada jogada genial (e sao muitas). Depois de 181 dias se recuperando de uma cirurgia no joelho, o “enganche” voltou a desfilar em seu palco preferido. Porque Rique não joga, Rique desfila.

Trata-se de um jogador que personifica a máxima de que quem tem que correr é a bola. E como ela corre certo quando sai de seus pés. Ver Riquelme na “cancha” dá a impressão de que, se fosse possível, pediria uma cadeira para sentar no meio-campo e apenas ditar a partida com sua inteligência e passes precisos. Riquelme raramente corre. No máximo, um piquezinho aqui, outro ali, em uma jogada que peça mais velocidade. O que ele gosta mesmo é de caminhar, trotar, e deixar claro que, mesmo no mundo atual em que o físico muitas vezes sobressai, é possível, sim, fazer da cabeça o membro fundamental para o futebol.

(Cahê Mota)Cadenciado e sincronizado como um tango, Riquelme encanta. Prende as atenções. Até certo ponto melancólico, ele pouco sorri. Mas faz com que muito sorriem. Ao contrário da característica de muitos argentinos, pouco vibra. Mas faz os outros vibrarem. E assim, com o jeito Riquelme de ser, se tornou D10S para aqueles que são reverenciados por D10S. Quis o destino que justamente no clube que ama Maradona não fosse unanimidade como em quase todo o resto do país. Na Boca, Maradona é respeitado por tudo que fez pela Argentina, mas D10S se escreve com 10 de Riquelme. Ou de Roman, como estampa em sua camiseta – e como se proliferam pela Bombonera, pela Boca, por toda Buenos Aires. São três títulos de Libertadores, dois mundiais, uma Recopa e quatro argentinos. Se o assunto é idolatria, o “Pibe” não leva o primeiro lugar com os ”xeneizes”. Talvez por isso eles tenham ficado ao lado de Roman na briga que o tirou da seleção recentemente.

A campanha do Boca no Torneio Apertura está longe de ser empolgante. A torcida sempre vibrante tem chamado a atenção por não fazer mais a Bombonera tremer como de costume. Mas na noite de 6 de novembro de 2010 foi diferente. E foi diferente por Riquelme. Todos estavam lá, com faixas, bandeiras, gritos, para ver o ídolo maior de contrato renovado por mais quatro anos e jogando pela primeira vez na temporada. Valeu a pena. Valeu a pena independentemente do placar, que, já disse, não importa.

Logo na primeira jogada, um passe de “taco” (calcanhar) fez com que todos levantassem e o aplaudissem. Daí para frente, o vasto repertório se fez presente. Toques certeiros e quase sempre de primeira, dribles curtos, passes magistrais (ou “passes de Riquelme”, como disse um torcedor após lindo lançamento para Clemente Rodríguez). A Bombonera pulsava. Pulsava por Riquelme.

Nunca fiz parte do grupo de brasileiros que o chama de “amarelão” (pecho frio na Argentina). Amarelão um tricampeão da Libertadores, às vezes jogando sozinho, como em 2007? Amarelão um jogador com esse currículo? Preferem lembrar os fracassos recentes da seleção argentina. Preferem lembrar o pênalti perdido na semifinal da Champions League de 2006 após conduzir (com imenso destaque) a modesta equipe a tal estágio da competição mais importante de clubes do mundo. Eu faço outra escolha.Vejo o Riquelme que alçou o Boca ao posto de clube mais vencedor da última década. Palmeirenses e gremistas que o digam.

Riquelme é amarelo. Amarelo ouro e azul, as cores do Boca. As cores de seu coração. Sempre o tive, ao lado de Alex, como um dos maiores que vi jogar. E agora posso realmente dizer que vi. Saí para ver o Boca, para sentir a Bombonera, (que realmente não se cala e treme durante os 90 minutos – mesmo após cada gol do adversário), mas a imagem que ficará para sempre na minha memória é a de Riquelme desfilando enquanto os outros corriam.

Gracias, Roman!

(Cahê Mota)(Cahê Mota)

fonte: globo