sexta-feira, 23 de abril de 2010

Time de vovós sul-africanas faz sucesso em Polokwane, uma das sedes da Copa

Senhoras de 47 a 84 anos começaram a jogar futebol por causa da saúde, ficaram famosas e agora já têm até excursão programada para os EUA

Nora Makubela, um filho, nove netos, 84 anos, zagueira. Cristina Matchebe, cinco filhos, 11 netos, 62 anos, lateral. As duas fazem parte do elenco de 37 senhoras que representa o Vakhegula Vakhegula, o mesmo que "vovozinhas" na língua xitshonga, um time criado há três anos nos arredores de Polokwane, África do Sul. Mulheres que encontraram no futebol um remédio para as dores da idade, uma diversão e uma nova identidade.

- Aqui todo mundo só me chama de Maradona - explica Cristina. - Fui eu mesma que me dei esse apelido, porque gosto muito do Maradona desde os tempos em que ele jogava.

Rafael Pirrho/GLOBOESPORTE.COM

Antes de entrar em campo elas sempre cantam juntas algumas músicas em idiomas locais

Cristina Maradona chegou à equipe do mesmo jeito que a maioria de suas companheiras. Precisava fazer uma atividade física e soube da novidade: um time de futebol só de senhoras, criado pela assistente comunitária Beka Ntsanwisielas, para que elas pudessem se exercitar e se divertir.

- Quando meu marido faleceu, temi ficar doente, deprimida. Mas aí surgiu o nosso time, comecei a jogar, me divertir e me tornar mais saudável. Por causa dele acordo mais feliz todos os dias e entro em campo com muita energia. Tenho 62 anos com corpinho de 48 - brinca Maradona.

O time tem 37 jogadoras, com idades que variam entre 47 a 84 anos

Brincadeira que virou um prazeroso compromisso. Hoje elas se reúnem pelo menos três vezes por semana para jogar. Campo, bola e traves oficiais. Uniformes completos com camisa, short, meião, chuteiras, caneleiras além de uma bandana verde bordada com rosas na cabeça. As regras são iguais às do futebol profissional. A única diferença é que os tempos têm 15 minutos cada, e não 45.

Antes de entrar em campo, já uniformizadas, elas se perfilam lado a lado, no corredor que dá acesso ao gramado, exatamente como se faz em uma Copa do Mundo. E na falta de uma música ou de hinos, começam a cantar em idiomas locais, dançar e bater palmas a caminho do campo.

A mais velha da turma é Nora, de 84 anos, nascida antes mesmo da primeira Copa do Mundo. Ela normalmente começa na reserva e só entra no segundo tempo. Suas chuteiras carregam o escudo do Arsenal, da Inglaterra. Nora chega ao pequeno estádio onde acontecem os treinos e jogos com uma bengala, mas dispensa o apoio dentro de campo.

- O futebol é um ótimo exercício pra mim, me sinto mais forte agora. Peço a Deus que me mantenha saudável para ver a Copa do Mundo no meu país - diz ela.

Elogio do Comitê Organizador e torneio nos EUA

O ritmo do jogo, claro, é lento. Mas isso não significa falta de competitividade. Todas correm o que podem e até usam o corpo para se livrar das adversárias. Uma das melhores é Beatrice Tshabalala, caçula do grupo, centroavante que usa a juventude de seus 47 anos para chegar na frente das zagueiras. Por isso é chamada de Messi.

- O futebol mudou nosso estilo de vida. Quando comecei muita gente achou esquisito, diziam que eu tinha que ficar em casa, que não era certo uma senhora praticando esporte. Mas hoje toda minha família sente orgulho do que faço. Minha filha já contou que jogo bola para todos os amigos dela. Me considero muito mais jovem do que as mulheres da minha idade - conta Beatrice.

Rafael Pirrho/GLOBOESPORTE.COM

O Vakhegula Vakhegula foi criado há três anos e é aberto a qualquer senhora que queira jogar futebol

As partidas são dirigidas por três homens. Um juiz de 26 anos, que vira gandula quando a bola vai para muito longe, e dois técnicos, um de 23 e outro de 20. Somadas as idades dos dois comandantes não dá os 47 anos de Beatrice.

- Na verdade são elas que nos ajudam porque nos fazem muito bem, estão sempre alegres. Algumas tinham dificuldades até para andar quando começaram. Veja agora como correm em campo e se esforçam - destaca Romeo Rikhotso, de 20 anos, que não recebe nada para treinar as meninas.

O time mereceu elogios também do diretor-executivo do Comitê Organizador da Copa do Mundo, Danny Jordaan.

- Infelizmente não temos como colocá-las na festa de abertura, mas montar times como esse é uma iniciativa que deve ser encorajada. Gostaria que houvesse uma Copa do Mundo das vovós também - brincou.

Em julho, logo depois do Mundial, o time das vovós sul-africanas embarca em sua primeira viagem internacional. Elas irão para os Estados Unidos disputar um torneio de veteranos.

O encontro improvável de 37 senhoras dentro de um campo de futebol, além de render mais saúde e boas gargalhadas, dá a elas agora um pouquinho de fama também.

- Já ficamos conhecidas, tem gente que nunca vi na vida me cumprimentando nas ruas. Perguntam: "você não é uma daquelas vovós que jogam futebol"? - diverte-se Beatrice.

fonte: globo